Theosophical Society,

H P Blavatsky
Ingles:- The Voice of the
Silence
(Da tradução inglesa)
As páginas seguintes são
extraídas do Livro dos Preceitos de Ouro, uma das obras lidas pelos estudiosos
do misticismo no Oriente. O seu conhecimento é obrigatório naquela escola cujos
ensinamentos são aceitos por muitos teosofistas. Por isso,
É bem sabido que na Índia
os métodos de desenvolvimento psíquico divergem segundo os Gurus (professores
ou mestres), não só porque eles pertencem a diferentes escolas filosóficas, das
quais há seis, mas também porque cada Guru tem o seu sistema, que em geral
mantém cuidadosamente secreto. Mas, para além dos Himalaias, não há diferença
de métodos nas escolas esotéricas, a não ser que o Guru seja simplesmente um
Lama, pouco mais sabendo do que aqueles a quem ensina.
A obra, de onde são os
trechos que traduzo, forma parte da mesma série de onde são tiradas as estrofes
do Livro de Dzyan sobre que A Doutrina Secreta se baseia. Juntamente com a obra
mística chamada Paramartha, a qual segundo nos diz a lenda de Nagarjuna, foi
ditada ao grande Arhat pelos Nagas ou serpentes - nome dado aos antigos
iniciados - o Livro dos Preceitos Áureos invoca a mesma origem. As suas máximas
e conceitos, porém, por nobres e originais que sejam, encontram-se muitas
vezes, sob formas diversas, em obras sânscritas, tais como o Jnaneshevari, esse
soberbo tratado místico em que Krishna descreve a Arjuna, em cores brilhantes,
a condição dum iogue plenamente iluminado; e ainda em certos Upanishads. Isto,
afinal, é naturalíssimo, visto que quase todos, senão todos, os maiores Arhats,
os primeiros seguidores do Gautama Buda, foram hindus e árias, e não mongóis,
sobretudo aqueles que emigraram para o Tibete. As obras deixadas apenas por
Aryasanghas são, por si só, numerosíssimas.
Os preceitos originais
estão gravados sobre lâminas oblongas delgadas; as cópias, muitas vezes, sobre
discos. Estes discos ou chapas são geralmente conservados nos altares dos
templos ligados aos centros onde estão estabelecidas as chamadas escolas “contemplativas”
ou Mahayana (Yogacharya). Estão escritos de diversas maneiras, às vezes no
idioma tibetano, mas principalmente em idéografos. A língua sacerdotal
(senzar), além de por um alfabeto seu, pode ser traduzida em várias maneiras de
escrita em caracteres cifrados, que têm mais de ideogramas do que de sílabas.
Um outro método (lug, em tibetano) é o de empregar os números e as cores, cada
um dos quais corresponde a uma letra do alfabeto tibetano (trinta letras
simples e setenta e quatro compostas), formando assim um alfabeto criptográfico
completo. Quando se empregam os idéografos há uma maneira certa de ler o texto,
pois, neste caso, os símbolos e os sinais usados na astrologia, isto é, os doze
animais zodíacos e as sete cores primárias, cada uma tripla em seu matiz
(claro, primário e escruro), representam as trinta e três letras do alfabeto
simples, formando palavras e orações. Porque, neste método, os doze animais,
cinco vezes repetidos e juntos aos cinco elementos e às sete cores, compõem um
alfabeto completo de de setenta letras sagradas e doze signos. Um signo posto
no princípio de um parágrafo indica se o leitor tem de soletrar segundo o modo
índio (em que cada palavra é apenas uma adaptação, sânscrita), ou segundo o
princípio chinês de ler os ideógrafos. O método mais fácil é, porém, aquele que
não deixa o leitor empregar qualquer língua especial, ou o que quiser, visto
que os sinais e os símbolos eram, como os números ou algarismos arábicos,
propriedade comum e internacional entre os místicos iniciados e os seus
seguidores. A mesma peculiaridade é característica de uma das maneiras chinesas
de escrever, que pode ser lida com igual facilidade por qualquer pessoa
conhecedora dos caracteres: por exemplo, um japonês pode lê-la na sua língua
tão prontamente
O Livro dos Preceitos
Áureos - alguns dos quais são pré-budísticos, ao passo que outros pertencem a
um época posterior - contém uns noventa pequenos tratados distintos. Destes
aprendi de cor, há muitos anos, trinta e nove.
E, contudo, esta moral
enche tomos e tomos da literatura oriental, sobretudo nos Upanishads. “Mata
todo o desejo de viver” - diz
Por isso se julgou melhor
fazer uma escolha judiciosa só entre aqueles tratados que mais sirvam aos
poucos verdadeiro místicos que há na Sociedade Teosófica, e que com certeza se
ajustem às suas necessidades. Só esses compreenderão estas palavras de
“Sábios, não choreis nem
pelos vivos nem pelos mortos. Nunca deixei de existir, nem vós, nem estes reis
dos homens; nem no futuro deixará qualquer um de nós de existir” (Bhagavad
Gita, II 11-12).
Estas instruções são para
aqueles que não conhecem os perigos dos Iddhi (1) inferiores.
Aquele que quiser ouvir a
voz de Nada (2), o Som sem som, e compreendê-la, terá de aprender a natureza do
Dharana (3).
Tendo-se tornado
indiferente aos objetos da percepção, deve o aluno procurar o Raja dos
sentidos, o produtor de pensamentos, aquele que acorda a ilusão.
A Mente é a grande assassina do
Real.
Que o discípulo mate o
assassino.
Porque quando para si mesmo
a sua própria forma parece irreal, como o parecem, ao acordar, todas as formas
que ele vê em sonhos; quando deixar de ouvir os muitos, poderá divisar o Um - o
som interior que mata o exterior.
Então, e só então,
abandonará ele a região de Asat, o falso, para chegar ao reino de Sat, o
verdadeiro.
Antes que a
Antes que a
Antes que a
Porque então a
E então ao ouvido interior
falará
A Voz do Silêncio
e dirá:
Se a tua Alma sorri ao
banhar-se ao sol da tua vida; se a tua Alma canta dentro da sua crisálida de
carne e de matéria; se a tua Alma chora dentro do seu castelo de ilusão; se a
tua Alma se esforça por quebrar o fio de prata que a liga ao Mestre (4); sabe,
ó discípulo, que a tua Alma é da terra.
Quando ao tumulto do mundo
a tua Alma (5) que desabrocha dá ouvidos; quando à voz clamorosa da grande
ilusão (6) a tua Alma responde; quando se assusta ao ver as lágrimas quentes da
dor, quando a ensurdecem os gemidos da angústia, quando a Alma se retira, como
a tartaruga tímida, para dentro da concha da personalidade, sabe, ó discípulo,
que do seu Deus silencioso a tua Alma é um sacrário indigno.
Quando, já mais forte, a
tua Alma vai saindo do seu retiro seguro; quando, deixando o sacrário protetor,
estende o seu fio de prata e avança; quando, ao contemplar a sua imagem nas
ondas do espaço, ela murmura, “Isto sou eu” - declara, ó discípulo, que a tua
Alma está presa nas teias da ilusão (7).
Esta terra, discípulo, é a
sala da tristeza, onde existem, pelo caminho das duras provações, armadilhas
para prender o teu Eu na ilusão chamada “a grande heresia” (8).
Esta terra, ó discípulo
ignaro, não é senão a triste entrada para aquele crepúsculo que precede o vale
da verdadeira luz - essa luz que nenhum vento pode apagar, e que arde sem óleo
nem pavio.
Diz a grande Lei: “
Cavalga a Ave da Vida, se
queres saber (12).
Abandona a tua vida, se queres
viver (13).
Três salas, ó cansado
peregrino, conduzem ao fim dos trabalhos. Três salas, ó conquistador de Mara,
te trarão através de três estados (14) até ao quarto (15), e daí até aos sete
mundos (16), os mundos do descanso eterno.
Se queres saber os seus
nomes, escuta-os e aprende-os.
O nome da primeira sala é
Ignorância - Avidya. É a sala em que viste a luz, em que vives e hás de morrer
(17).
O nome da segunda sala é a
Sala da Aprendizagem (18). Nela a tua
O nome da terceira sala é
Sabedoria, para além da qual se estende o mar sem praias de Akshara, a fonte
indestrutível da onisciência (20) .
Se queres atravessar
seguramente a primeira sala, que o teu espírito não tome os fogos da luxúria
que ali ardem pela luz do sol da vida.
Se queres atravessar
seguramente a segunda, não pares a aspirar o perfume das suas
Os sábios não se demoram
nas regiões de prazer dos sentidos.
Os sábios não dão ouvidos
às vozes musicais da ilusão.
Procura aquele, que te dará
o ser (21), na Sala da Sabedoria, a sala que está para além, onde todas as
sombras são desconhecidas e onde a luz da verdade brilha como uma glória
imorredoura.
Aquilo que é incriado está
dentro de ti, discípulo, assim
Esta luz brilha na jóia do
grande enganador (Mara) (23). Enfeitiça os sentidos, cega o espírito e deixa o
descuidado naufragado e sozinho.
A borboleta atraída para a
chama da tua lâmpada noturna está condenada a ficar morta no azeite. A
Olha as hostes das
Se, passando pela Sala da
Sabedoria, queres chegar ao vale da felicidade, fecha, discípulo, os teus
sentidos à grande e cruel heresia da separação, que te afasta dos outros.
Que aquilo que em ti é de
origem divina não se separe, engolfando-se no mar de Maya (24), do Pai
Universal (a Alma), mas que o Poder de Fogo (25) se retire para a câmara
interior, a câmara do coração (26), e o domicílio da Mãe do Mundo (27).
Então do coração esse poder
subirá até à sexta região, à região média, ao lugar entre os teus olhos, quando
se toma a respiração da
É só então que te podes
tornar um “que anda nos céus” (28), que
Antes que ponhas o pé sobre
o degrau superior da escada, da escada dos sons místicos, tens de ouvir de sete
maneiras a voz do teu Deus interior (29).
A primeira é
A segunda vem
A terceira é
E a esta segue-se o canto da
vina (30).
A quinta,
Muda depois para um clamor de
trompa.
A última vibra
A sétima absorve todos os
outros sons. Eles morrem, e não tornam a ouvir-se.
Quando os seis (31) estão
mortos e postos aos pés do mestre, então se entrega o aluno no Único (32), se
torna esse Único e nele vive.
Antes que possas entrar
para esse caminho, tens de destruir o teu corpo lunar (33), e limpar o teu
corpo mental (34), assim
As águas puras da vida
eterna, límpidas e cristalinas, não podem misturar-se com as torrentes
lamacentas da tempestade de monção.
O orvalho do céu brilhando
ao primeiro raio do sol no coração do lótus, quando cai na terra torna-se uma,
gota de lama; vede
Antes que o poder místico
(35) te possa fazer um Deus, Lanu, deves ter adquirido a faculdade de matar,
quando quiseres, a tua forma lunar.
A pessoa da matéria e a
Pessoa do Espírito nunca se podem encontrar. Uma delas tem de desaparecer; não
há lugar para ambas.
Antes que a mente da tua
Não podes caminhar no
Caminho enquanto não te tornares, tu próprio, esse Caminho (36).
Que a tua
Que o sol feroz não seque
uma única lágrima de dor antes que a tenhas limpado dos olhos de quem sofre.
Que cada lágrima humana
escaldante caia no teu coração e aí fique; nem nunca a tires enquanto durar a
dor que a produziu.
Estas lágrimas, ó tu de
coração tão compassivo, são os rios que irrigam os campos da caridade imortal.
É neste terreno que cresce a flor noturna de Buda (37), mais difícil de achar,
mais rara de ver, do que a flor da árvore Vogay. É a semente da libertação do
renascer. Ela isola o Arhat tanto da luta
Mata o desejo; mas se o
matares, cuida bem em que ele não renasça da morte.
Mata o amor da vida; mas se
matares Tanha (38), que isso não seja pela ânsia da vida eterna, mas para substituir
o evanescente pelo eterno.
Não desejes nada. Não te
indignes contra o Carma, nem contra as leis imutáveis da natureza. Mas luta
apenas com o pessoal, o transitório, o evanescente e o que tem de perecer.
Auxilia a natureza e
trabalha com ela; e a natureza ter-te-á por um dos seus criadores,
obedecendo-te.
E ela abrirá de par em par
diante de ti as portas das suas câmaras secretas, desnudará ao teu ornar os
tesouros ocultos nas profundezas do seu seio virgem. Impoluída pela mão da
matéria, ela revela os seus tesouros apenas aos olhos do Espírito - os olhos
que nunca se fecham, os olhos para os quais não há véu em todos os seus remos.
Então ela te mostrará o
meio e a senda, a primeira porta, e a segunda, e a terceira, até à própria
sétima porta. E então a meta, para além da qual estão, banhadas pelo sol do
Espírito, glórias indizíveis, que só o olhar da
Há só uma senda até ao
Caminho; só chegado bem ao fim se pode ouvir a Voz do Silêncio. A escada pela
qual o candidato sobe é formada por degraus de sofrimento e de dor; estes só
podem ser calados pela voz da virtude. Ai de ti, pois, discípulo, se há um
único vício que não abandonaste; porque então a escada abaterá e far-te-á cair;
a sua base assenta no lodo fundo dos teus pecados e defeitos, e antes que
possas tentar atravessar esse largo abismo de matéria, tens de lavar os teus
pés nas águas da renúncia. Acautela-te, não vás pousar um pé ainda sujo no
primeiro degrau da escada. Ai daquele que ousa poluir um degrau com seus pés
lamacentos. A lama vil e viscosa secará, tornar-se-á pegajosa, e acabara por
colar-lhe o pé ao degrau; e,
Mata os teus desejos, Lanu;
torna os teus vícios impotentes, até dares o primeiro passo na jornada solene.
Estrangula os teus pecados,
torna-os mudos para sempre, antes que ergas um pé para subir a escada.
Faze calar os teus
pensamentos e concentra toda a tua atenção sobre o teu Mestre, que tu por
enquanto não vês, mas sentes.
Funde num só sentido todos
os teus sentidos, se queres tomar-te seguro contra o inimigo. É só por aquele
sentido que está oculto no vácuo do teu cérebro, que o caminho íngreme que
conduz ao teu Mestre se pode revelar aos olhos indecisos da tua,
Longa e fatigante é a senda
ante ti, ó discípulo. Um único pensamento a respeito do passado que abandonaste
puxar-te-á para baixo, e terás novamente de começar a ascensão.
Mata em ti toda a
recordação de experiências passadas. Não te voltes para trás ou estás perdido.
Não creias que a luxúria
pode alguma vez ser morta se é satisfeita ou saciada, porque isso é uma
abominação inspirada por Mara.
É alimentando o vício que
ele se expande e torna forte,
A
A árvore dourada dá
O aluno tem de tornar ao
estado de infância que perdeu antes que o primeiro som lhe possa soar ao
ouvido.
A luz do único Mestre, a
única, eterna, luz dourada do Espírito, derrama os seus raios fulgurantes sobre
o discípulo desde o princípio. Os seus raios atravessam as nuvens espessas e
pesadas da matéria.
Ora aqui, ora ali, esses
raios iluminam-na,
A não ser que ouças, não
poderás ver.
A não ser que vejas, não
poderás ouvir. Ouvir e ver, eis o segundo estágio.
........................................................
Quando o discípulo vê e
ouve, e quando cheira e gosta, com os olhos fechados, os ouvidos fechados,
tapados o nariz e a, boca; quando os quatro sentidos se fundem e estão prontos
a tornar-se o quinto, aquele do tato interior - então passou ele para o quarto
estágio.
E no quinto, á matador dos
teus pensamentos, todos estes têm de ser outra vez mortos até não ser possível
reanimarem-se (40).
Retira a tua mente de todos
os objetos externos, de todas as vistas externas. Retira as imagens internas,
para que não lancem uma sombra negra sobre a luz da tua
Estás agora em Dharana
(41), o sexto estágio.
Quando tiveres passado para
o sétimo, ó bem-aventurado, não mais verás os Três sagrados (42), porque te
terás, tu próprio, tornado esses Três. Tu próprio e a mente, como gêmeos sobre
uma linha, a estrela que é o teu guia brilha por cima, nas alturas (43). Os
Três que moram na glória e na felicidade inefáveis, agora perderam os seus
nomes no mundo de Maya. Tornaram-se uma só estrela, o fogo que arde mas não
queima, o fogo que é o Upadhi (44) da chama.
E isto, ó iogue do sucesso,
é aquilo a que os homens chamam Dhyana (45), o verdadeiro precursor do Samadhi
(46).
E agora a tua personalidade
está perdida na Personalidade, tu para contigo próprio imerso naquela
Personalidade de onde primeiro irradiaste.
Onde está a tua
individualidade, Lanu, onde está o próprio Lanu? É a fagulha perdida no meio do
fogo, a gota dentro do oceano, o raio de luz sempre presente tornado o Todo e o
fulgor eterno.
E agora, Lanu, tu és o
agente e a testemunha, o que irradia e a irradiação, a luz no som, e o som na
luz.
Conheces, ó bem-aventurado,
os cinco impedimentos. Tu és o seu conquistador, o mestre do sexto, libertador
dos quatro modos da verdade (47) - A luz que cai sobre eles brilha de ti, à tu
que foste discípulo, mas agora és professor.
E destes modos da verdade:
Não atravessaste tu o
conhecimento de toda a dor - primeira verdade?
Não venceste tu o rei dos
Maras em Tsi, a porta da reunião (48) - segunda verdade?
Não destruíste tu o pecado
à terceira porta, atingindo a terceira verdade?
Não entraste tu para Tau, o
caminho que leva ao conhecimento (49) a quarta verdade?
E agora, descansa sob a
árvore de Bodhi, que é a perfeição de todo o conhecimento, porque, sabe-o, és
possuidor de Samadhi - o estado da visão infalível.
Vê! tornaste-te a luz,
tornaste-te o som, és o teu Mestre e o teu Deus. Tu próprio és o objeto da tua
busca: a voz sem falha, que ressoa através de eternidades, isenta de mudança,
isenta de pecado, os sete sons em um,
A Voz do Silêncio.
Om Tat Sat.
E AGORA, ó Mestre da
compaixão, ensina tu o caminho aos outros homens. Olha, todos aqueles que,
batendo para que os admitam, esperam na ignorância e na escuridão ver abrir-se
a porta da suave Lei!
A voz dos candidatos:
Não quererás tu, Mestre da
tua própria misericórdia, revelar a doutrina do coração (50)? Recusar-te-ás a
conduzir os teus servos até ao Caminho da libertação?
Diz o mestre:
Os caminhos são dois; as
grandes perfeições três; seis as virtudes que transformam o corpo na árvore da
sabedoria (51).
Quem se aproximará delas?
Quem primeiro entrará para
elas?
Quem primeiro ouvirá a
doutrina dos dois caminhos em um, a verdade sem véu a respeito do Coração
Secreto (52)? A lei que, rejeitando o aprender, ensina a sabedoria, revela uma
história de dor.
Ai de nós, ai de nós, que
todos os homens possuam Alaya, sejam unos com a grande Alma, e que,
possuindo-a, Alaya de tão pouco lhes sirva!
Repara como, qual a lua se
reflete nas ondas tranqüilas, Alaya é refletida pelos pequenos e pelos
grandes, espelhado nos átomos ínfimos, e contudo não consegue chegar ao coração
de todos. Ai de nós, que tão poucos sejam os homens que se aproveitem do dom,
do dom sem preço, de aprender a verdade, a verdadeira percepção das coisas
existentes, o conhecimento do não-existente!
Diz o aluno:
Ó Mestre, que farei eu para
atingir a sabedoria? Ó Sábio, que farei para conseguir a perfeição?
Procura os caminhos. Mas, ó
Lanu, sê puro de coração antes que comeces a tua jornada. Antes que dês o
primeiro passo, aprende a separar o real do falso, o transitório do eterno.
Aprende sobretudo a separar a ciência da cabeça da sabedoria da Alma, a
doutrina dos “olhos” da doutrina do “coração”.
Sim, a ignorância é como
uma vasilha fechada e sem ar; a Alma uma ave dentro dela. Não canta, nem pode
mexer uma pena; mas jaz num torpor e morre de não poder respirar.
Mas mesmo a ignorância é
melhor do que a ciência de cabeça sem a sabedoria de Alma para a iluminar e
guiar.
As sementes da sabedoria
não podem germinar e crescer no espaço sem ar. Para viver e comer experiência,
o espírito precisa espaço e profundidade e pontos que o guiem para a Alma de
Diamante (53). Não procures esses pontos no reino de Maya; mas ergue-te acima
das ilusões, busca o eterno e imutável Sat (54), desconfiando das falsas
sugestões de fantasia.
Porque a mente é como um
espelho; cobre-se de pó ao mesmo tempo que reflete (55). Precisa que as brisas
leves da sabedoria de Alma limpem o pó das nossas ilusões. Procura, ó
principiante, fundir a tua mente e a tua Alma.
Afasta-te da ignorância e
da ilusão também. Vira o rosto às decepções do mundo; desconfia dos teus
sentidos; eles mentem. Mas dentro do teu corpo - escrínio das tuas sensações -
procura no impessoal o Homem Eterno (56) e, tendo-o procurado, olha para
dentro; tu és Buda (57).
Rejeita o aplauso, ó
crente; o aplauso conduz à ilusão de si próprio. O teu corpo não é
Personalidade, a tua Personalidade é, em si, sem corpo, e o elogio ou a censura
não a atingem.
O contentamento de si
próprio, ó discípulo, é uma torre altíssima, à qual um insensato orgulhoso
subiu. Ali se senta em orgulhosa solidão, invisível a todos, salvo a si
próprio.
A falsa ciência é rejeitada
pelos sábios, e espalhada aos ventos pela Boa Lei. A sua roda gira para todos,
tanto para os humildes como para os orgulhosos. A doutrina dos olhos é para a
multidão; o doutrina do coração para os eleitos. Os primeiros repetem,
orgulhosos: “Vede, eu sei”; os últimos, aqueles que humildemente fizeram a sua
colheita, confessam em voz baixa: “Assim ouvi” (58).
“A Grande Joeira” é o nome
da Doutrina do Coração, ó discípulo.
A roda da Boa Lei gira
rapidamente. Noite e dia mói. Afasta o joio do trigo dourado, e a casca da
farinha. A mão do Carma guia a roda; as rotações marcam o bater do coração
cármico.
O verdadeiro conhecimento é
a farinha, a falsa ciência é a casca. Se queres comer o pão da sabedoria, tens
de amassar a tua farinha com a água límpida de Amrita (59). Mas, se amassas
cascas com o orvalho de Maya, só podes criar alimento para as pombas negras da
morte, as aves da nascença, da decadência e da tristeza.
Se te disserem que para te
tornares Arhan tens de deixar de amar todas as coisas - dize-lhes que mentem.
Se te disserem que para te
libertares tens de odiar a tua mãe e desprezar o teu filho; de renegar o teu
pai e chamar-lhe dono de casa (60); de renunciar toda a compaixão pelos homens
e pelos animais - dize-lhes que as suas palavras são falsas.
Assim ensinam os Tirthikas
(61), os descrentes.
Se te ensinarem que o
pecado nasce da ação e a felicidade da inação absoluta, dize-lhes que se
enganam. A não-permanência da ação humana, a libertação da mente da sua
escravidão pela cessação do pecado e das culpas não são coisas para os Eus
Devas (62). Assim reza a doutrina do coração.
O Dharma (63) dos olhos é a
corporização do externo e do não-existente.
O Dharma do coração é a
corporização de Bodhi (64), o eterno e o permanente.
A lâmpada brilha bastante
quando estão limpos pavio e óleo. Para limpá-los é preciso quem os limpe. A
chama não sente o processo de limpeza. “Os ramos de uma árvore são sacudidos
pelo vento; o tronco fica imóvel”.
Tanto a ação como a inação
podem caber em ti; o teu corpo agitado, a tua mente tranqüila, a tua Alma
límpida como um lago de montanha.
Queres tu tornar-te um
iogue do círculo do tempo? Então, ó Lanu:
Não creias que sentando-te
em florestas escuras, em orgulhosa reclusão, longe dos homens; não creias que a
vida alimentada a plantas e raízes, saciada a sede com a neve da. grande
Cordilheira - não creias, ó devoto, que isto te levará à meta da libertação
final.
Não julgues que o partir
dos ossos, o rasgar da carne e dos músculos, te unirá à tua Personalidade
silenciosa (65). Não julgues que quando estão vencidos os pecados da tua forma
grosseira, ó vítima das tuas sombras (66), o teu dever está cumprido para com a
natureza e com os homens.
Os bem-aventurados não
quiseram fazer assim. O Leão da Lei, o Senhor da Misericórdia (67), percebendo
a verdadeira causa da dor humana, imediatamente abandonou o repouso suave mas
egoísta das solidões sossegadas. De Aranyaka (68) tornou-se o Mestre da humanidade.
Depois de Julai (69) ter entrado para o Nirvana, ele pregou em montanhas e
planícies, fez sermões nas cidades, aos Devas, aos homens e aos Deuses (70).
Semeia boas ações e
colherás o seu fruto. A inação num ato de misericórdia passa a ser a ação num
pecado mortal.
Assim diz o Sábio:
Por que queres abster-te da
ação? Não é assim que a tua Alma conseguirá a sua liberdade. Para chegar ao
Nirvana é preciso chegar ao conhecimento de Si próprio, e o conhecimento de Si
próprio é filho de ações caridosas.
Tem paciência, candidato,
como quem não teme falhar, nem procura triunfar. Fixa o olhar da tua Alma na
estrela cujo raio és (71), a estrela chamejante que brilha nas profundezas sem
luz do ser eterno, nos campos sem limite do desconhecido.
Tem perseverança, como
aquele que tem de sofrer eternamente. As tuas sombras vivem e desaparecem (72);
aquilo que em ti viverá para sempre, aquilo que em ti conhece (porque é o
conhecimento) não é da vida transitória; é o Homem que foi, que é, e que há de
ser, para quem a hora nunca soará.
Se queres colher a suave
paz e o descanso, discípulo, semeia as sementes do mérito nos campos das
colheitas futuras. Aceita as dores da nascença.
Afasta-te da luz do sol
para a sombra, para dares mais espaço aos outros. As lágrimas que regam o solo
árido da dor e da tristeza fazem nascer as flores e os frutos da retribuição
cármica. Da fornalha da vida humana e do seu fumo denso, saltam chamas aladas,
chamas purificadas, que, erguendo-se alto, sob o olhar cármico, tecem por fim o
tecido glorioso das três vestes do Caminho (73).
Essas vestes são:
Nirmanakaya, Sambhogakaya, e Dharmakaya, traje sublime (73).
A veste Shangna, (74) é
certo, pode comprar a luz eterna. A veste Shangna, por si só, dá o Nirvana da
destruição; pára o renascer, mas, ó Lanu, também mata a compaixão. Os Budas
perfeitos, que vestem a glória do Dharmakaya, já não podem contribuir para a
salvação humana. Ai de nós! Devem as personalidades ser sacrificadas a uma só?
Deve a humanidade ser sacrificada ao bem de indivíduos?
Aprende, ó principiante,
que este é o caminho aberto, o caminho para a felicidade egoísta, evitado pelos
Bodhisattvas do Coração Secreto, os Budas da Compaixão.
Viver para servir a
humanidade é o primeiro passo. Praticar as seis virtudes gloriosas (75) é o
segundo.
Vestir a veste humilde do
Nirmanakaya é rejeitar para si a felicidade eterna, para poder auxiliar a
salvação humana. Chegar à felicidade do Nirvana, mas renunciar a ela, é o passo
supremo, final - o mais alto no caminho da renúncia.
Aprende, ó discípulo, que é
este o caminho secreto, escolhido pelos Budas da perfeição, que sacrificaram a
sua Personalidade a personalidades mais fracas.
Mas, se a doutrina do
coração é alta demais para ti, se precisas te auxiliar a ti próprio e receias
oferecer auxílio aos outros - então, tu de coração tímido, acautela-te a tempo;
contenta-te com a doutrina ocular da Lei. Continua esperando. Porque se o
Caminho Secreto não é atingível hoje, amanhã (76) estará ao teu alcance,
Aprende que não há esforço, por pequeno que seja quer no bom sentido, quer no
mau - que possa perder-se e desaparecer no mundo das causas. Mesmo o fumo dado
ao vento não é sem rastro. “Uma palavra brusca dita em vidas passadas não se
perde, mas renasce sempre” (77). A pimenteira não produz rosas, nem a estrela
de prata do jasmim se torna espinho ou cardo.
Podes criar hoje tuas
oportunidades de amanhã. Na Grande Jornada (78), as causas semeadas cada hora
produzem cada qual a sua colheita de efeitos, porque uma justiça inalterável
rege o mundo. Com o vasto alcance de ação infalível ela traz aos mortais vida
de alegria ou de angústia, a prole cármica dos nossos pensamentos e ações
anteriores.
Aceita, pois, tanto quanto
o mérito te reserva, ó de coração paciente. Anima-te e contenta-te com a
sorte. Tal é o teu Carma, o Carma do ciclo dos teus nascimentos, o destino
daqueles que, na sua dor e tristeza, nascem a ti ligados, riem e choram de
vida a vida, presos às tuas ações anteriores.
....................................................................................
Age tu por eles hoje, e
eles agirão por ti amanhã.
É do botão da renúncia da
sua própria personalidade que nasce o fruto doce da libertação final.
Condenado a perecer é
aquele que por medo de Mara deixa de auxiliar os homens, receando agir em
proveito próprio. O peregrino que quer refrescar os seus membros lassos em
águas correntes, mas não mergulha por medo à corrente, arrisca-se a morrer de
calor. A inação baseada no medo egoísta não pode dar senão mau fruto.
O devoto egoísta vive
inutilmente. Vive em vão o homem que não realiza na vida a obra para que
nasceu.
Segue a roda da vida; segue
a roda do dever para com a tua raça e os do teu sangue, para com o amigo e o
inimigo, e fecha a tua mente tanto aos prazeres como à dor. Esgota a lei da
retribuição cármica. Adquire siddhis (79) para o teu nascimento futuro.
Se não podes ser o sol, sê
então o humilde planeta. Sim, se te é impossível brilhar
Aponta o caminho - por
vagamente que o faças, e perdido entre a multidão -
Olha Migmar (80), quando
nos seus véus carmesins o seu olhar se derrama sobre a Terra que dorme. Olha a
aura de fogo da mão de Lhagpa (81) estendida com amorosa proteção por sobre as
cabeças dos seus ascetas. Ambos são agora servos de Nyima (82), ficando, na sua
ausência,
Sê, ó Lanu,
Dize-lhe, ó candidato, que
aquele que faz do orgulho e do egotismo servos da devoção; que aquele que,
tenaz da sua existência, em todo o caso depõe a sua paciência e submissão à Lei
Dize-lhe, ó aspirante, que
a verdadeira devoção pode tornar a dar-lhe o conhecimento, aquele conhecimento
que era seu nas suas vidas anteriores. A visão dévica e o ouvido dévico não se
podem obter em uma breve vida.
Sê humilde, se queres
adquirir a sabedoria: sê mais humilde ainda, quando a tiveres adquirido.
Sê
Domina o teu ser interior
com o teu ser divino. Domina o divino com o eterno.
Sim, grande é aquele que
mata o desejo: maior ainda é aquele em quem a divina Personalidade matou o
próprio conhecimento do desejo.
Põe-te de guarda ao
inferior, para que não macule o superior.
O caminho para a libertação
final está dentro da tua personalidade. Esse caminho começa e acaba fora da
personalidade (85).
Sem elogios de todos os
homens e humilde é a mãe de todos os rios na vista orgulhosa de Tirthika (86);
vazia a forma humana, ainda que cheia das águas suaves de Amrita ao olhar dos
insensatos. E, contudo, a origem dos rios sagrados é a terra sagrada (87), e
aquele que possui a. sabedoria é respeitado por todos os homens.
Arhans e Sábios da visão
ilimitada (88) são raros
Nenhum Arhan, ó Lanu, se
torna um naquela vida em que pela primeira vez a
Porque ou vence ou cai.
Sim, se vence, o Nirvana
será seu. Antes de abandonar a sua sombra, de enjeitar a sua veste mortal, essa
causa abundante de angústia e de dor ilimitável, os homens honrarão nele um
Buda grande e sagrado.
E se cai, mesmo assim não
cai em vão; os inimigos que abateu na última batalha não tornarão a viver na
sua próxima encarnação.
Mas, se queres chegar ao
Nirvana, ou rejeitar esse prêmio (91), não deixes o fruto da ação e da inação
ser o teu motivo, ó de coração indômito.
Aprende que ao Bodhisattva
que troca a libertação pela renúncia para vestir as angústias da vida secreta
(92), chama-se três vezes venerado, ó candidato à dor através dos ciclos.
O Caminho é um, discípulo,
mas, no fim, duplo. Marcados estão os seus estágios por quatro e sete portas. A
uma extremidade a felicidade imediata, à outra, felicidade renunciada. Ambos
são a recompensa do mérito: a escolha a ti pertence.
O um toma-se os dois, o
Aberto e o Secreto (93). O primeiro leva à meta, o segundo à imolação de si
próprio.
Quando ao permanente o
mutável se sacrifica, o prêmio é teu; volta a gota ao lugar de onde veio, O
Caminho Aberto conduz à mudança imutável - Nirvana, o estado glorioso de
absoluto, a felicidade para além da concepção humana.
Assim, o primeiro caminho é
a Libertação.
Porém, o segundo caminho é
a Renúncia; por isso é chamado o Caminho da Dor.
O Caminho Secreto conduz o
Arhan a uma angústia mental inexprimível; dor pelos mortos que estão vivos
(94), e compaixão inútil pelos homens da tristeza cármica; o fruto do Carma
não ousam os Sábios fazer parar.
Porque está escrito:
“Ensina a evitar todas as causas; à maré do efeito,
O Caminho Aberto, mal
chegaste ao seu fim, levar-te-á a rejeitar o corpo bodhisattvico, e far-te-á
entrar para o estado três vezes glorioso de Dharmakaya (95), que é o eterno
esquecimento dos homens e do mundo.
A estrada secreta também
conduz à felicidade paranirvânica - mas ao termo de kalpas inúmeros; Nirvanas
ganhos e perdidos por uma piedade e compaixão ilimitadas pelo mundo de mortais
iludidos.
Mas diz-se: “O último será
o maior”. Samyak Sambuda, o Mestre da perfeição, abandonou a sua Personalidade
para salvação do mundo, parando no limiar do Nirvana, o estado de pureza.
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Tens agora o conhecimento a
respeito dos dois Caminhos. Chegará o momento em que terás de escolher, ó de
“Doces são os frutos do
descanso e da libertação por causa da Personalidade; porém, mais doces ainda os
frutos do dever longo e amargo; sim, da renúncia por amor aos outros, aos
homens que sofrem”.
Aquele que se converte em
Pratyeka-Buda só presta obediência à sua Personalidade.
O Bodhisattva que ganhou a
batalha, que tem o prêmio na mão, mas exclama, na sua divina compaixão:
“Por amor aos outros
abandono esta grande recompensa” - realiza a renúncia maior.
Ele é um
.....................................................................................
Repara! A meta da
felicidade e o longo Caminho da dor estão no extremo fim. Podes escolher um ou
outro, ó aspirante à tristeza, através dos ciclos que hão de vir!
TERCEIRO FRAGMENTO
AS SETE PORTAS
UPADHYA (96), a escola está
feita. Anseio pela sabedoria. Rasgaste já o véu que escondia o caminho secreto
e ensinaste o
Está bem, Shravaka (98).
Prepara-te, porque terás de seguir sozinho, O mestre só pode apontar a direção.
O caminho é um para todos, o meio de chegar à meta deve variar de peregrino
para peregrino.
Qual é que vais escolher, ó
de coração indômito? O Samtan (99) da doutrina dos olhos, o quádruplo Dhyana,
ou abrirás caminho através das Paramitas (100), seis em número, nobres portas
da virtude conduzindo a Bodhi e a Prajna, sétimo passo da sabedoria?
O caminho árduo do
quádruplo Dhyana ondula montanha acima. Três vezes grande é aquele que chega ao
píncaro altíssimo.
As alturas de Paramita são
atravessadas por um caminho ainda mais íngreme. Tens de forçar o teu caminho
através de sete portas, sete fortalezas guardadas por poderes cruéis e
ardilosos - paixões encarnadas.
Anima-te, discípulo; tem
sempre presente o preceito áureo. Uma vez passada a porta Srotapatti (101)
“aquele que entrou para o rio” cujo pé foi posto sobre o leito do rio nirvânico
nesta vida ou em qualquer vida futura, tem apenas diante dele mais sete
nascimentos, ó homem de vontade de ferro.
Repara. Que vês tu diante
dos teus olhos, ó aspirante à sabedoria divina?
“O manto da escuridão cobre
a profundeza da matéria; nas suas dobras me debato. Aprofunda-se, Senhor, à
medida que para ele olho; um gesto da tua mão o desfaz. Mexe-se uma sombra,
arrastando-se
É a sombra de ti próprio
fora do Caminho, caindo sobre a escuridão dos teus pecados.
“Sim, Senhor, vejo o
Caminho; o seu princípio fincado no lodo, o seu cimo perdido na nirvânica luz
gloriosa: e agora vejo os portais cada vez mais estreitos na estrada árdua e
espinhosa para Jnana” (102).
Vês bem, Lanu. Esses
portais levam o aspirante a atravessar o rio para a outra margem (103). Cada
portal tem uma chave de ouro que abre a sua porta; e essas chaves são:
1. Dana, a chave da caridade e do amor imortal.
2. Shila, a chave da harmonia nas palavras e nos atos, a chave que
contrabalança a causa e o efeito, não deixando mais espaço à ação cármica.
3. Kshanti, a paciência suave, que nada pode alterar.
4. Vairagya, a indiferença ao prazer e à dor, a ilusão vencida, só a
verdade vista.
5. Virya, a energia indômita que abre o seu caminho para a verdade
suprema, erguendo-se acima das mentiras terrenas.
6. Dhyana, cuja porta de ouro, uma vez aberta, leva o Naljor (104) para
o reino de Sat, o eterno, e para a sua contemplação sem fim.
7. Prajna, cuja chave faz de um homem um Deus, criando-o um
Bodhisattva, filho dos Dhyanis.
Tais são as chaves de ouro
para esses portais.
Antes que te possas acercar
do último, ó tecedor da tua liberdade, tens de possuir estas Paramitas da
perfeição - as virtudes transcendentais em número de seis e dez - por esse
longo caminho.
Porque, ó discípulo, antes
que estivesses apto a encontrar o teu Mestre frente a frente, o teu Senhor luz
a luz, que foi que te disseram?
Antes que te possas acercar
da porta mais próxima tens de aprender a separar o teu corpo do teu espírito, e
a viver no eterno.
Não deixarás os teus
sentidos fazer do teu espírito campo para o seu recreio.
Não separarás o teu ser do
Ser, e do resto, mas fundirás o oceano na gota de água, e a gota de água no
oceano.
Assim estarás em acordo com
tudo quanto vive; ama os homens
Professores há muitos; a
Alma-Mestra (105) é uma, Alaya, a Alma Universal. Vive nesse Mestre
Antes que estejas no limiar
do Caminho; antes que entres pela primeira porta, tens de fundir os dois em um
e sacrificar o pessoal à Personalidade impessoal, e assim destruir o caminho
entre as duas - Antahkarana (106).
Tens de estar pronto para
responder a Dharma, a lei austera, cuja voz te perguntará ao teu primeiro
passo, ao teu passo inicial.
“Obedeceste a todas as
regras, ó de altas esperanças?
“Puseste o teu coração e a
tua mente de acordo com a grande mente e o grande coração de toda a humanidade?
Porque, como a voz sonora do grande rio, na qual todos os sons têm o seu eco
(107), assim deve o coração daquele que queira entrar para o rio vibrar em
resposta a cada suspiro e a cada pensamento de tudo quanto vive e respira”.
Os discípulos podem ser
comparados a cordas da vina que produz eco nas
Assim fazem os irmãos da
sombra - os assassinos das suas
Puseste o teu ser de acordo
com a grande dor da humanidade, ó candidato à luz?
Fizeste assim?... Podes
entrar. Antes, porém, que dês um passo no duro caminho da tristeza, é bom que
aprendas quais são os perigos da estrada.
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Armado com a chave da
caridade, do amor e da terna misericórdia, podes estar tranqüilo ante a porta
de Dana, a porta que fica à entrada do Caminho.
Vê, ó ditoso peregrino! O
portal que tens diante de ti é alto e largo, parece de fácil acesso. A estrada
que o atravessa é reta, suave e relvada. É
Passa, segue para diante!.
Trouxeste a chave: estás salvo.
Acautela-te com isto, ó
candidato; acautela-te contra o medo que, como as asas negras e silenciosas do
morcego noturno, se alastra entre o luar da tua Alma e a tua grande meta que
surge na distância, muito longe ainda.
O medo, ó discípulo, mata a
vontade e demora a ação. Se é falho da virtude Shila, o peregrino tropeça, e
pedras cármicas ferem-lhe os pés pelo caminho pedregoso.
Não feches os olhos, nem
percas de vista Dorje (110); as setas de Mara atingem sempre o homem que não
chegou ao Vairagya (111).
Não tremas. Sob o hálito do
medo enferruja a chave de Kshanti; a chave ferrugenta já não pode abrir.
Quanto mais avançares, mais
e mais serão os perigos que cercarão os teus passos. O caminho que segue para
diante é iluminado por uma chama - a luz da audácia ardendo no coração. Quanto
mais ousares, mais conseguirás. Quanto mais temeres, mais a luz esmorecerá - e
só ela te pode guiar. Porque
Acautela-te, discípulo, com
essa sombra letal. Nenhuma luz que brilhe do Espírito pode dispersar a
escuridão da
Mas, uma vez passada a
porta de Kshanti, está dado o terceiro passo. O teu corpo é teu escravo.
Prepara-te agora para a quarta porta, a porta das tentações que enleiam o homem
interior.
Antes que possas acercar-te
dessa meta, antes que a tua mão se erga para levantar o fecho da quarta porta,
deves ter dominado todas as alterações mentais em ti, e matado o exército das
sensações-pensamentos que, sutis e insidiosas, se introduzem, sem que tu
queiras, no sacrário luzente da Alma.
Se não queres que elas te
matem, deves tornar inofensivas as tuas criações, os filhos dos teus
pensamentos, invisíveis, impalpáveis, que enxameiam em torno à humanidade,
prole e herdeiros do homem e das suas presas terrestres. Tens de estudar o
vácuo do aparentemente cheio, o cheio do aparentemente vazio. Ó aspirante
intemerato, olha bem para dentro do poço do teu coração, e responde. Conheces
bem os poderes da Personalidade, ó observador das sombras externas?
Se os não conheces, está
perdido.
Porque, no quarto caminho,
a mais leve brisa da paixão ou do desejo fará tremer a luz firme nos muros
brancos e puros da
“Abandona para sempre as
oito cruéis angústias; se não, por certo que não chegaste à sabedoria, nem
ainda à libertação”, diz o grande Senhor, o Tathagata da perfeição, “aquele que
seguiu as passadas dos seus predecessores (113).
Austera e exigente é a
virtude de Vairagya. Se queres possuir o seu caminho, tens de ter a tua mente,
as tuas percepções mais do que nunca livres da ação mortal.
Tens de te saturar do puro
Alaya, de te identificar com o pensamento da alma da Natureza. Unificado com
ele és invencível; separado dele, torna-te o campo de recreio de Samvritti
(114), origem de todas as ilusões do mundo.
Tudo é transitório no
homem, salvo a pura e clara essência do Alaya. O homem é o seu raio cristalino;
por dentro um raio de luz imaculada, uma forma de barro material na superfície
inferior. Esse raio é o teu guia de vida e a tua Personalidade verdadeira, a
sentinela e o pensador silencioso, a vítima do teu ser inferior. A tua Alma não
pode ser ferida senão através do teu corpo pecador; domina e rege os dois e
estarás salvo quando estiveres cruzando as proximidades da Porta do Equilíbrio.
Anima-te, audaz peregrino,
para a outra margem. Não dês ouvidos ao segredar das hostes de Mara; afasta os
tentadores, esses espíritos de má índole, os Lhamayn (115) no espaço infinito.
Mantém-te firme! Acerca-te
agora do portal médio, da porta da dor, com as suas dez mil armadilhas.
Domina os teus pensamentos,
ó ansioso pela perfeição, se queres atravessar o limiar dela.
Domina a tua alma, ó
ansioso pelas verdades eternas, se queres chegar à meta.
Concentra o olhar da tua
alma na luz única e pura, na luz que nada afeta, e serve-te da tua chave de
ouro.
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O árduo trabalho está
feito, a tua tarefa quase finda. O grande abismo, que se abria para te tragar,
está quase passado.
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Atravessaste a vala que circula
a porta das paixões humanas. Venceste já a Mara e à sua horda furiosa.
Tiraste a impureza do teu
coração e sangraste-o de desejos impuros. Mas, ó combatente glorioso, a tua
tarefa ainda não está no fim. Constrói alto, Lanu, o muro que há de defender a
tua Ilha Sagrada (116), o dique que protegerá o teu espírito do orgulho e do
contentamento ao pensares no teu grande feito.
Um sentimento de orgulho
macularia a tua obra. Sim: ergue forte o muro, não vá o impulso feroz das ondas
em guerra, que sobem e batem na sua costa, vindas do grande Mundo do oceano de
Maya, engolfar o peregrino e a ilha; - sim, no próprio momento da vitória.
A tua “ilha” é a corça, os
teus pensamentos os galgos que cansam e perseguem o seu avanço até ao rio da
vida. Ai da corça que é atingida pelos galgos malignos antes que chegue ao vale
do refúgio - Jnana-Marga (117), “o caminho do puro conhecimento”.
Antes que te possas
estabelecer em JnanaMarga e chamar-lhe teu, a tua Alma tem de se tornar como o
fruto maduro da mangueira: mole e doce como a sua polpa dourada para as
angústias dos outros, duro como o caroço desse fruto para as tuas próprias
dores e angústias, ó triunfador da alegria e da tristeza.
Torna a tua Alma dura
contra as armadilhas da tua personalidade; faze com que ela mereça o nome de
Alma de Diamante.
Porque, como o diamante
enterrado fundo no coração vivo da terra não pode refletir as luzes terrenas,
assim são a tua mente e a tua Alma; imersos no Jnana-Marga, nada devem refletir
do meio ilusório de Maya.
Quando chegares a esse
estado, os portais que tens de vencer no teu caminho abrem de par em par as
suas portas, para que passes e os poderes maiores da natureza não têm força
para te embargar o passo. Serás dono do sétuplo caminho: mas só então o serás,
ó candidato a provas indizíveis.
Até ali, espera-te uma
tarefa muito mais difícil: tens de te sentir todo pensamento, e contudo exilar
da tua alma todos os pensamentos.
Tens de chegar àquela
fixidez de espírito em que nenhuma brisa, por mais que cresça, pode soprar um
pensamento material para dentro dele. Assim purificado, o sacrário deve ficar
vazio de toda a ação, som ou luz da terra; assim como a borboleta, atingida
pela geada, cai morta no limiar - assim todos os pensamentos materiais devem
cair mortos ante o tempo.
Vê que está escrito:
“Antes que a chama dourada
possa arder com um brilho firme, deve a lâmpada estar guardada num lugar livre
de toda a aragem”. Exposta à brisa volúvel, a chama tremerá, e, tremendo,
lançará sombras enganosas, negras, e sempre variantes, sobre o sacrário branco
da Alma.
E então, ó perseguidor da
verdade, a alma da tua mente tornar-se-á como um elefante louco, que se
enfurece na floresta. Tomando as árvores por inimigos vivos, morre ao tentar
matar as sombras sempre incertas bailando no muro dos rochedos inundados de
sol.
Acautela-te, não vá a tua
alma, ao cuidar da tua Personalidade, perder pé no terreno do conhecimento
Deva.
Acautela-te, não vá a tua
Alma, ao esquecer a Personalidade, perder o seu domínio sobre o seu espírito trêmulo,
perdendo assim o justo prêmio das suas conquistas.
Acautela-te contra a
mudança, porque a mudança é o teu grande inimigo. A mudança lutará contigo,
afastar-te-á, atirar-te-á para fora do caminho que trilhas, para dentro de
pântanos viscosos de dúvida.
Prepara-te e acautela-te a
tempo. Se experimentaste e falhaste, ó lutador indômito, não percas, porém, a
coragem: continua a lutar, e volta ao embate repetidamente.
O guerreiro destemido,
ainda que o sangue da sua vida lhe escorra das feridas abertas, continuará a
atacar o inimigo, expulsálo-á do seu forte, vencê-lo-á mesmo, antes que ele
próprio expire. Agi, pois, todos vós que falhais e que sofreis, como esse
soldado; e do forte da vossa Alma expulsai todos os vossos inimigos - a
ambição, a cólera, o ódio, até a sombra do desejo - mesmo quando tiverdes
falhado...
Lembra-te, tu que lutas
pela libertação humana (118), que cada falência é um triunfo, e cada tentativa
sincera a seu tempo recebe o seu prêmio. Os santos germes que brotam e crescem
invisíveis na Alma do discípulo, dobram como juncos mas não quebram, nem podem
eles perder-se. Mas quando a hora soa, desabrocham (119).
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Mas se vieste preparado,
então não temas nada.
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Daqui em diante é claro o
teu caminho, que vai direto à porta de Virya, o quinto dos sete portais. Estás
agora no caminho que conduz ao porto do Dhyana, o sexto portal, o portal Bodhi.
A porta do Dhyana é como um
vaso de alabastro, branco e transparente; dentro dele arde uma luz firme e
dourada, a chama de Prajna, que de Atman irradia.
Esse vaso és tu.
Afasta-te dos objetos dos
sentidos, seguiste pelo caminho da visão, pelo caminho da audição, e estás
agora na luz do conhecimento. Chegaste agora ao estado de Titiksha (120).
Ó Naljor, estás salvo.
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Aprende, vencedor dos
pecados, que uma vez que um Sowani (121) tenha atravessado o sétimo caminho,
toda a natureza estremece de alegria e se sente submissa. A estrela prateada
eis que cintila esta nova às flores da noite, o riacho murmura esse conto às
pedras; as ondas escuras do oceano o cantam aos rochedos cheios de espuma, as
brisas perfumadas cantam-no aos vales, e os pinheiros altivos segredam
misteriosamente: “Surgiu um Mestre, um Mestre do Dia” (122).
Ele se ergue agora como uma
coluna branca ao ocidente, sobre cuja fronte o sol nascente do pensamento
eterno derrama as suas primeiras ondas gloriosas. O seu espírito, como um
oceano ilimitado em calmaria, alastra-se no espaço sem praias. Ele tem a vida e
a morte na sua mão poderosa.
Sim, ele é poderoso. O
poder vivo tornado livre nele, esse poder que é Ele próprio, pode erguer o
tabernáculo da ilusão muito acima dos Deuses, a cima dos grandes Brahm e Indra.
É agora, por certo, que ele conseguirá o seu grande prêmio!
Não usará ele os dons, que
isso confere, para seu descanso e felicidade, para seu proveito e glória tão
bem ganhos - ele o subjugador da grande ilusão?
Não, ó candidato à ciência
secreta da natureza! Se quiseres seguir os passos do santo Tathagata, esses
dons e poderes não são para ti próprio. Irás assim por um dique às águas
nascidas em Someru (123)? Irás desviar o rio para teu serviço, ou fazê-lo subir
até à sua nascente, pelos cerros dos ciclos?
Se quiseres que esse rio de
conhecimento bem ganho, de sabedoria de divina origem, fique uma corrente pura,
não deves deixar que ele se torne um lago estagnado.
Aprende: se quiseres
tornar-te cooperador de Amitabha, a Idade Ilimitada, então deves derramar a luz
adquirida, como os dois Bodhisattvas (124), sobre a extensão de todos os três
mundos (125).
Aprende que a corrente de
conhecimento sobre-humano e a sabedoria Deva, que adquiriste, deve, de ti, o
canal de Alaya, ser derramada para outro leito.
Aprende, ó Naljor, tu do
caminho secreto, que as suas águas puras devem ser empregadas para tornar mais
doces as ondas amargas do oceano - esse grande mar de sofrimento formado pelas
lágrimas dos homens.
Ai de ti! Uma vez que te
tornaste como a estrela fixa no alto céu, esse claro orbe celeste deve, das
profundezas do espaço, brilhar para todos, menos para si mesmo; dar luz a
todos, e a nenhum tirá-la.
Ai de ti! Uma vez tornado
como a neve pura nos vales das montanhas, fria e insensível ao tato, quente e
protetora para a semente que dorme fundo sob o seu seio - agora é essa neve que
deve receber a geada mordente, os vendavais do norte, protegendo assim do seu
dente fino e cruel a terra que contém a colheita prometida, a colheita que dará
pão aos que têm fome.
Por ti próprio condenado a
viver através de Kalpas futuros sem que os homens te vejam ou te agradeçam;
apertado como uma pedra contra inúmeras outras que formam o “Muro da Guarda”
(126), tal é o teu futuro se passares a sétima porta. Construído pelas mãos de
muitos Mestres da Compaixão, erguido pelas suas torturas, cimentado pelo seu
sangue, ele proteje a humanidade, desde que o homem é homem, livrando-a de
novas e maiores angústias e tristezas.
O homem, porém, não o vê,
não o quer ver, nem quer dar ouvidos à palavra da Sabedoria, porque não a
conhece.
Mas tu ouviste-a, tu sabes
tudo, ó de Alma ansiosa e imaculada... e tens de escolher. Escuta ainda.
No Caminho de Sowan, ó
Srotapatti, segues seguro. Sim, nesse Marga, onde apenas a escuridão vem ao
encontro do peregrino cansado, onde, rasgadas por espinhos, as mãos gotejam
sangue, os pés são rasgados por pedras agudas e duras, e Mara emprega as suas
armas mais fortes - para além dele, imediatamente há um grande prêmio.
Calmo e impassível, o
peregrino vai até ao rio que conduz ao Nirvana. Ele sabe que quanto mais os
seus pés sangrarem, mais lavado e limpo ele próprio ficará. Ele sabe bem que
depois de sete breves e transitoriais nascenças, o Nirvana lhe pertencera...
Tal é o caminho de Dhyana,
o porto do iogue, a meta sagrada que o Srotapattis buscam.
Não é assim quando
atravessou e conquistou o caminho Arhat (127).
Ali Klesha (128) é
destruído para sempre, e as raízes de Tanha (129) arrancadas; mas pára,
discípulo... escuta uma palavra ainda. Podes tu destruir a divina compaixão? A
compaixão não é um atributo. É a Lei das leis - a harmonia eterna, o próprio
Ser de A1aya, uma essência universal sem praias, a luz da justiça eterna, o
acordo de tudo, a lei do eterno amor.
Quanto mais com ela te
unificares, fundindo o teu ser no seu ser, tanto mais a tua Alma se unirá
àquilo que é, tanto mais te tornarás a Compaixão Absoluta (130).
Tal é o caminho Arya,
caminho dos Budas da perfeição.
Mas o que significam os
livros sagrados que te fazem dizer:
“Om! Creio que nem todos os
Arhats obtêm o doce gozo do caminho nirvânico.
“Om! Creio que no
Nirvanadharma não entram todos os Budas” (131).
Sim, no caminho de Arya já
não és um Srotapatti, és um Bodhisattva (132). Atravessaste o rio. É certo que
tens direito à veste do Dharmakaya; mas um Samhbogakaya é maior do que um
Nirvani, e maior ainda é um Nirmanakaya - o Buda da Compaixão (133).
Inclina agora a tua fronte
e escuta bem, ó Bodhisattva - a compaixão fala e diz:
“Pode haver felicidade
quando tudo quanto vive tem de sofrer? Quererás salvar-te ouvindo todo o mundo
chorar?”
Agora ouviste o que se
disse:
Chegarás ao sétimo degrau e
atravessarás a porta do conhecimento final, mas apenas para tomares a dor por
esposa - se queres ser Tathagata, seguir os passos do teu predecessor,
conservar-te altruísta até ao fim sem fim.
Estás iluminado - escolhe o
teu caminho.
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Olha a luz suave que inunda
o céu oriental. Céu e terra unem-se em gestos de adoração. E dos poderes
quadruplamente manifestados sobe um cântico de amor, tanto do fogo que brilha
como da água que corre, da terra perfumada e do vento que passa.
Escuta!... do grande e
insondável vórtice daquela luz dourada em que o Vencedor se banha, toda a voz
sem palavras da natureza se ergue para em mil tons proclamar:
Saúdo-vos, ó homens de Myalba.
(134).
Um peregrino regressou da
“outra margem”
Nasceu um novo Arhan. (135).
Paz a todos os seres. (136).
Notas
1. A palavra páli Iddhi eqüivale ao Siddhis sânscrito, as faculdades
“psíquicas” os poderes anormais do homem. Há duas espécies de Siddhis - um
grupo que compreende as energias inferiores, grosseiras, “psíquicas” e mentais,
ao passo que o outro exige o mais alto cultivo das capacidades espirituais. Diz
Krishna no Shrimad Bhagavat:
“Aquele que está
ocupado na execução da Ioga, que venceu os seus sentidos e concentrou o seu
espírito em mim (Krishna) - a tais iogues como esse estão todos os Siddhis
prontos a servir.” .
2. A voz sem som, ou a “voz do silêncio”. Literalmente, isto devia
talvez traduzir-se “voz no som espiritual”, visto que Nada é o equivalente
sânscrito do termo Senzar. .
3. Dharana é a concentração intensa e perfeita do espírito sobre
qualquer objeto interior, acompanhada da abstração completa de tudo quanto
pertença ao universo exterior, ou mundo dos sentidos. .
4. O “grande Mestre” é o termo que os chelas empregam para designar a
Personalidade Superior. Equivale ao Avalokiteshvara, e é o mesmo que o Adi-Buda
dos ocultistas do budismo, que o Atmandos Brâmanes, e que o Christos dos
antigos Gnósticos. .
5. “Alma” é aqui empregado para designar o Eu ou Manas humano, a que
na nossa oculta divisão setenária se chama a Alma humana, para distingui-la das
Almas espirituais e animais. .
6. Maha-Maya, a grande ilusão, o universo objetivo. .
7. Sakkayaditthi, a ilusão da personalidade. .
8. Attavada, a heresia da crença na Alma, ou antes, na separação da
Alma ou Personalidade do Ser universal, uno e infinito. .
9. O Tattvajnani é o conhecedor ou discriminador dos princípios na
natureza e no homem; e Atmajnani é o conhecedor de Atman ou da Personalidade
Única universal. .
10. Kala Hamsa, a ave ou cisne. Diz o Nadavindupanishat (Rig Veda)
traduzido pela Sociedade Teosófica de Kumbakonam - “Considera-se a sílaba A
como a asa direita da ave Amsa, U a asa esquerda, M a cauda, e o Ardhamatra
(meiometro) diz-se ser a sua cabeça”. .
11. A eternidade tem para os orientais um sentido diverso do que tem
para nós. Representa em geral os 96 anos ou idade de Brama, a duração de um
Mahakalpa, ou seja, um período de 311.040.000.000.000 anos. .
12. Diz o citado Nadavindu, “Um iogue que cavalga o Hamsa (assim
contempla sobre o AUM) não é afetado por influências cármicas ou efeitos de
pecados”. .
13. Abandona a vida da personalidade física se queres viver em Espírito.
.
14. Os três estados de consciência, que são: Jagrat, o de vigília;
Svapna, o de sonho; e Sushupti, o estado de sono profundo. Estas três
condições iogues conduzem ao quarto, que é - .
15. O Turiya, o que está além do estado do sono sem sonhos, um estado de
alta consciência espiritual. .
16. Alguns místicos orientais indicam sete planos do ser, os sete Lokas
ou mundos espirituais dentro do corpo de Kala Hamsa, o cisne fora do tempo e do
espaço, conversível em o cisne dentro do tempo, quando se torna Brama em vez de
Braman. .
17. O mundo fenomênico só dos sentidos e da consciência terrena. .
18. A sala da aprendizagem da época da provação. .
19. A região astral, o mundo psíquico das percepções super-sensuais e
das visões ilusórias - o mundo dos médiuns. É a grande “serpente astral” de
Éliphas Lévi. Nenhuma flor colhida nesse mundo foi alguma vez trazida para a
terra sem que trouxesse a sua serpente enroscada na haste. É o mundo da grande
ilusão. .
20. A região da plena consciência espiritual, para além da qual já não
há perigo para quem lá chegou. .
21. Ao Iniciado, que conduz o discípulo, pelos conhecimentos que lhe
ministra, à sua segunda nascença, ou nascença espiritual, chama-se o pai, Guru
ou Mestre. .
22. Ajnana é a ignorância ou não-sabedoria, o contrário do conhecimento,
Jnana. .
23. Mara é, nas religiões exotéricas, um demônio, um Asura, mas na
filosofia exotérica é a personificação da tentação pelos vícios humanos;
traduzido literalmente, quer dizer “aquilo que mata” a
24. Ilusão. .
25. O “poder de fogo” é Kundalini. .
26. A câmara interior do coração, chamada em sânscrito Brahma-Pura. .
27. O “Poder” e a “Mãe do Mundo” são nomes dados a Kundalini - um dos
poderes místicos iogues. É o Budi considerado
28. Kechara, “o que passeia”, ou “anda”, nos céus. Conforme se explica
no sexto Adhyaya dessa rainha das obras místicas, os Jnaneshvari - o corpo do
iogue se torna como que feito de vento; como “uma nuvem de onde nasceram
membros” depois do que - “ele (o iogue) contempla as cousas para além dos mares
e das estrelas; ouve e compreende a linguagem dos Devas (deuses) e percebe o
que se está passando no espírito da formiga”. .
29. A individualidade superior. .
30. Vina é um instrumento de corda índio parecido com o alaúde. .
31. Os seis princípios que constituem o homem; isto acontece quando a
personalidade inferior é destruída e a individualidade íntima se funde e perde
no sétimo espírito (Atman). .
32. O discípulo torna-se uno com Braman ou Atman. .
33. A forma astral produzida pelo princípio cármico, o Kama Rupa, ou
corpo de desejo. .
34. Manasa Rupa. Assim como o Kama Rupa se refere ao ser astral ou
pessoal. Manasa Rupa se relaciona com a individualidade, ou Eu reencarnante,
cuja consciência no nosso plano, ou Manas inferior, tem de ser paralisada. .
35. Kundalini, o poder serpentino ou fogo místico; chama-selhe o poder
serpentino ou anelar por causa do seu progresso ou caminho espiraliforme no
corpo do asceta que está desenvolvendo em si esse poder. É um poder oculto ou
foático elétrico e ígneo, a grande força primitiva que está por dentro de toda
a matéria orgânica e inorgânica. .
36. Este Caminho é mencionado em todas as obras místicas. Como diz
Krishna no Jnaneshvari: “Quando se contempla este caminho... quer sigamos para
o Oriente em flor, quer para as câmaras do Ocidente, Sem movimento, é portador
do arco, é a viagem nesta estrada. Neste caminho, qualquer que seja o lugar
para onde queiramos ir, esse lugar nos tornamos”. “Tu és o caminho”. - diz-se
ao Adepto Guru, e diz este ao discípulo, depois da Iniciação. “Eu sou a estrada
e o Caminho” - diz um outro Mestre. .
37. O grau de Adepto - a flor de Boddhisattva. .
38. Tanha - a vontade de viver, o medo da morte e amor à vida, aquela
força ou energia que causa o renascer. .
39. Os sons místicos, ou a melodia mística, ouvidos pelo asceta no
princípio do seu ciclo de meditação, chamado Anahatashabda pelos iogues. O
Anahaha é o quarto dos Chakras. .
40. Isto quer dizer que no sexto estágio de desenvolvimento, que, no
sistema oculto, é Dharana, cada sentido, como faculdade individual tem de ser
“morto” (ou paralisado) neste plano passando a ser, e fundindo-se com o sétimo
sentido, o mais espiritual. .
41. Dharana é a concentração intensa e perfeita do espírito sobre
qualquer objeto interior, acompanhada da abstração completa de tudo quanto pertença
ao universo exterior, ou mundo dos sentidos. .
42. Cada estágio de desenvolvimento na Raja Ioga é simbolizado por uma
figura geométrica. Esta é o triângulo sagrado e precede o Dharana. O D é o
sinal dos altos chelas, ao passo que outra espécie de triângulo é o dos altos
Iniciados. O “1” é o símbolo de que Buda falou e que empregou como símbolo da
forma incorporada de Tathagata quando liberta dos três métodos de Prajna. Os
estágios preliminar e inferiores uma vez passados, o discípulo já não vê o D
mas sim o -, a abreviatura do -, o setenário completo. A sua verdadeira forma
não é aqui dada porque é quase certo que seria aproveitada por qualquer
charlatão e profanada no seu uso para fins fraudulentos. .
43. A estrela que brilha nas alturas é a Estrela da Iniciação. O sinal
dos Shaivas, ou devotos da seita de Shiva, patrono de todos os iogues, é um
ponto circular negro, agora, talvez, símbolo do sol, mas o da Estrela da
Iniciação no ocultismo de outros tempos. .
44. A base (Upadhi) da chama sempre inatingível, enquanto o asceta está
nesta vida. .
45. Dhyana é o último estágio antes do final, nesta terra, a não ser que
nos tornemos pleno Mahatma. Como já se disse, neste estado o Raja Ioga é ainda
espiritualmente consciente da sua personalidade e da operação dos seus
princípios superiores. Mais um passo, e estará no plano para além do Sétimo, o
quarto, segundo certas escolas. Estas, depois da prática de Pratyahara - uma
educação preliminar, para dominar o espírito e os pensamentos - contam Dharana,
Dhyana e Samadhi, e envolvem os três sob o nome genérico de Sannyama. .
46. Samadhi é o estado em que o asceta perde a consciência de toda a
individualidade, incluindo a sua. Torna-se o Todo. .
47. Os quatro modos da verdade são, no budismo do norte: Ku, o
sofrimento ou miséria; Tu, a reunião das tentações; Mu, a destruição delas; e
Tau, o Caminho. Os “cinco impedimentos” são o conhecimento da angústia, a
verdade a respeito da fraqueza humana, restrições opressivas, e a absoluta
necessidade de separação de todas as peias da paixão, e mesmo dos desejos. O
“Caminho da salvação” é o último. .
48. No portal da reunião está o rei dos Maras, o Maha-Mara, tentando
cegar o candidato com o brilho da sua jóia. .
49. Este é o quarto dos cinco caminhos do renascer, que conduzem e
arrastam todos os seres humanos para um perpétuo estado de tristeza e de
alegria. Esses caminhos não passam de subdivisões do caminho único, o caminho
seguido pelo Carma. .
50. Às duas escolas da doutrina do Buda, a esotérica e a exotérica,
chama-se respectivamente a doutrina do “coração” e a doutrina dos “olhos”. A
Budhidharma, a religião da sabedoria da China - donde os nomes passaram para o
Tibete - chamou-lhes os homens do Tsung (escola esotérica) e os Kiau (escola
exotérica). A primeira é assim chamada porque é o ensinamento que emanou do
coração do Gautama Buda, ao passo que a doutrina dos olhos foi produto da sua
cabeça ou cérebro. A doutrina do coração também se chama o selo da verdade, ou
o verdadeiro selo, símbolo esse que se encontra encimando quase todas as obras
esotéricas. .
51. A árvore da sabedoria é o título dado pelos aderentes da Religião da
Sabedoria (Bodhidharma) àqueles que atingiram a altura do conhecimento místico
- aos Adeptos. A Nagarjuna, o fundador da Escola Madhyrnika, chamavam a
“Árvore-Dragão”, sendo o dragão o símbolo da sabedoria e do conhecimento. A
árvore é respeitada porque foi sob a árvore Bodhi (da sabedoria) que Buda
recebeu a sua nascença e esclarecimento, pregou o seu primeiro sermão, e
morreu. .
52. O Coração Secreto é a doutrina esotérica. .
53. A Alma de Diamante, Vajrasattva, um título do Buda supremo, Senhor
de todos os mistérios, chamado Vajradhara e Adi-Buda. .
54. Sat, a única realidade e verdade eterna e absoluta, sendo tudo mais
ilusão. .
55. Da doutrina de Shin-Sien, que ensina que a mente humana é como um
espelho que atrai e reflete todos os átomos de pó, e, como esse espelho, tem de
ser cuidada e limpa todos os dias. Shin-Sien foi o sexto patriarca da China
Setentrional, que ensinou a doutrina esotérica do Bodhidharma. .
56. Os Budistas do Norte chamam ao Eu reencarnante o Homem Eterno, que
se torna, em união com o seu ser superior, um Buda. .
57. Buda significa “Iluminado”. .
58. A fórmula costumeira que precede as escrituras budistas, e significa
que o que segue foi notado de direta tradição oral do Buda e dos Arhats. .
59. A imortalidade. .
60. Rathapala, o grande Arhat, assim se dirige a seu pai na lenda
chamada Rathapala Sutrasanne. Mas como todas essas lendas são alegóricas (por
exemplo: o pai de Rathapala tem uma casa com sete portas), compreende-se a
reprimenda àqueles que as aceitam literalmente. .